Em um momento histórico no qual se prega a agilidade dos serviços, a potencialização dos produtos e lucros, a rapidez do acesso à informação, as narrativas parecem dominar o espaço literário.

O romance, gênero burguês que tem suas raízes na epopeia clássica, é o gênero do século atual e dos dois últimos séculos. Até mesmo o conto, gênero fadado ao fim segundo alguns críticos por não conseguir se reinventar, vem tendo grande espaço atualmente, uma vez que são mais curtos e de mais palpável leitura entre os compromissos profissionais, pessoais etc.

Neste século (e em boa parte do século anterior também), a poesia parece viver o mesmo mal que assola a filosofia, um campo duro onde a fertilização do solo depende muito mais do que adubos tradicionais. O mundo narrativo parece não dar muito espaço à poesia, que tem sido pouco trabalhada nos estudos acadêmicos e vem tendo seu espaço diminuído também no mercado editorial. Alguns dizem que não há atualmente tão bons poetas quanto proseadores, e que no século passado desfrutamos de uma grande produção poética, da qual não temos senão resquícios.

Fato é que, mesmo que não se haja tanta produção poética quanto antes (fato questionável uma vez que a proliferação de escritores se faz muito bem hoje em dia via sites, blogs etc), a divulgação de poemas se manifesta fortemente via redes sociais que, assim sendo, incentiva amantes da literatura a buscarem a leitura de grandes poetas.

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis

alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,

em que todos se debruçavam

na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

 

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes

e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos

Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava

que rebentava daquelas páginas

 

Do mesmo modo, recentemente, para celebrar os cento e dez anos do nascimento de um de nossos maiores poetas, a Companhia das Letras relançou três grandes livros de Carlos Drummond de AndradeAs Impurezas do BrancoAntologia Poética e O Sentimento do Mundo.

Falar da genialidade de Drummond é dizer o já dito. Contudo, um fato deve ser reafirmado: os versos de Drummond derramam-se tão facilmente de seus livros que poesia parece coisa cotidiana, pertencente ao mundo comum e não de cérebros e mundo inventados. O olhar de Drummond transforma em poesia fatos corriqueiros de nossos dias, e é essa, a meu ver, a função de um poeta. Como diz Ferreira Gullar – outro grandessíssimo escritor de nossos tempos – que o poeta atinge esse grau de fazer poesia quando ele se depara com uma situação aparentemente sem valor, mas que o leva a compreender o metafísico que ali está.

É preciso casar João,

é preciso suportar Antônio

é preciso odiar Melquíades

é preciso substituir nós todos

é preciso salvar o país

é preciso crer em Deus,

é preciso pagar as dívidas,

é preciso comprar um rádio

é preciso esquecer fulana

 

De fato, Drummond é o poeta do cotidiano, bem como o figurino modernista o manda. É o poeta de cenas como “o chão é cama para o amor urgente/ amor que não espera ir para a cama/Sob o tapete ou duro piso, a gente/compõe de corpo a corpo a úmida trama/ E para reposar do amor, vamos à cama”. É o poeta, da simples Itabira, que afirma “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.

Sentimento do Mundo, livro publicado em 1940 é considerado chave dentro da obra do poeta mineiro. O filósofo Leandro Konder afirma que o livro contém poemas que buscam uma intervenção na história, uma transformação da sociedade, um movimento de politização do pensamento do Drummond. Em um dos seus poemas, o poeta mostra sua insatisfação com o momento presente, o que mostra seu olhar mais clínico com a sociedade que o cerca: “Não serei o poeta de um mundo caduco/Também não cantarei o mundo futuro/Estou preso à vida e olho meus companheiros./Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.”

 

Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora

O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça

Perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.

E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.

Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,

Longe um menino chora, em outra cidade talvez,

Talvez em outro mundo.

 

E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça.

E vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,

Escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).

E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.

 

Vemos aí um Drummond que não se esquece de falar das coisas de seu coração, mas é muito mais social. Vale lembrar que esse olhar social do poeta nada tem a ver com a política e com o governo do qual ele fazia parte (com o qual se demonstrou descontente), e foi inclusive injustamente acusado de ser a favor da segunda guerra. Drummond mescla coração e percepção neste livro, é um passo importante na obra do escritor. Ele atinge um ponto onde, acredito, encontram-se os grandes poetas.

Um grande poeta é o que faz com que o espírito do leitor se eleve, que faz com que se saia do lugar comum, do que foi convencionado. O bom poeta é aquele que faz com as pessoas enxerguem o mundo além do que foi convencionado para que elas enxergassem. Eis, Carlos Drummond de Andrade, que a meu ver está entre as dez maiores vozes poéticas da história da Literatura Brasileira (ele é o meu preferido juntamente com Ferreira Gullar, em um panteão que podemos agregar sem medo o próprio Ferreira Gullar, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Manuel Bandeira, Gregório de Mattos, Manoel de Barros, entre outros.

Cento e dez vezes Drummond, e muito mais do que cento e dez versos para deleite dos amantes da poesia, daqui até o fim dos tempos. Obrigado, Drummond, por nos dar tua poesia. Com ele, mesmo que não se crie mais nada à altura, a poesia reverbera pelos séculos vindouros.

 

SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige

na confluência do amor.

 

Quando me levantar, o céu

estará morto e saqueado,

eu mesmo estarei morto,

morto meu desejo, morto

o pântano sem acordes.

 

Os camaradas não disseram

que havia uma guerra

e era necessário

trazer fogo e alimento.

sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,

humildemente vos peço,

que me perdoeis.

 

Quando os corpos passarem,

eu ficarei sozinho

desfiando a recordação

do sineiro, da viúva e do microscopista

que habitavam a barraca

e não foram encontrados

ao amanhecer

 

esse amanhecer

mais noite que a noite.


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