Qual o Sentido de Viajar

Você trabalha mais de cinquenta por cento da sua vida. Quando está de folga ou tem férias, fica apenas na frente da TV. Essa é realmente a vida que você quer?

              Quando se trata de narrar oralmente histórias e experiências, há basicamente dois tipos de narradores/contadores de histórias que são respeitados por seus conhecimentos. Um deles é a figura de um ancião que sempre viveu no mesmo lugar desde que nasceu, passando ali todas as fases de sua vida e recolhendo histórias, conhecendo moradores e acontecimentos da região. O outro, exatamente oposto, é aquele que saiu para conhecer o mundo e retornou para contar suas histórias.

              Evidentemente que a ideia passar a vida viajando, sem um trabalho ou lugar fixo, é bem romantizada. Quantas vezes eu mesmo já não disse, em conversas com amigos, que meu sonho era morar em hotéis, trocar de casa toda semana, ver paisagens, vivenciar coisas, anotando tudo em um caderninho para depois, quem sabe, publicar um livro sobre isso. Obviamente não passa de uma utopia, mas talvez haja muitos pedaços desse mosaico que seja chama utopia que podem ser realizáveis.

              Muitas vezes é difícil sair dos clichês máximos sobre viagens: conhecer outra cultura, valorizar a sua própria, adquirir conhecimento, entre outros. Eu já tentei muitas vezes fugir deles. Hoje já nem tento. É claro que viagens não são sempre mil maravilhas. Quando viajo, geralmente prefiro hostels a hotéis, pois os primeiros são bem mais baratos, embora você acabe ficando em algum muquifo como em fiquei em Montevidéu. Obviamente que não foi fácil ter que dormir no chão da rodoviária de São Francisco porque minha viagem tinha sido cancelada por conta de uma nevasca. Com certeza fiquei frustrado quando percebi que minha máquina fotográfica havia sido furtada por um batedor de carteira em Paris. Sofri muito com minha bronquite em Roma. Foi deveras frustrante não conseguir chegar ao topo de uma montanha na Patagônia, após horas e horas de caminhada, por conta de dois problemas físicos – um no joelho direito e outro nas costas. Mas não morri em nenhuma dessas situações. Ao contrário, foram experiências que, somadas às outras, entraram no meu arcabouço de conhecimento de viagens.

              A figura do viajante sempre foi, para mim, muito mais interessante do que aquela do sujeito que vive a vida toda no mesmo lugar. Talvez tenha gente que goste, e eu respeito, mas me causa desespero pensar que eu viveria no mesmo lugar sem nunca sair dali nem nunca conhecer outros lugares. Porém, confesso que a ideia tenha lá sua beleza. O problema é que hoje em dia essa figura praticamente não existe. Esse ancião cheio de conhecimento é aquele que conhece a topografia do lugar, o clima, a definição das estações, as pessoas do lugar, as histórias que vieram com ela, as histórias que elas construíram ali. Mas hoje, o fato de o sujeito viver muitos anos no mesmo lugar não faz dele um conhecedor. Não se conversa mais com os vizinhos, não se vive mais em comunidade. Só se pensa em TV e internet. Eu adoro os dois. Assisto a programa de esportes, filmes e até programas sobre casa e comida. Gasto bastante tempo no facebook, whatsapp e outros aplicativos. O problema não está em ficar na TV e internet. O problema está em ficar SÓ enfurnado em casa na TV e na internet. De modo que o ancião cheio de conhecimento deu lugar a um morto-vivo babão.

              Eu uso internet, gosto de TV e moro na mesma casa (embora nos últimos meses eu tenha uma outra residência em Londrina) em Maringá há 25 anos. Isso não me impediu de conhecer uma porção de países, porção ainda pequena, mas que pretendo aumentar em breve. O meu trabalho às vezes é sufocante. Para ganhar a vida, um professor, além de se entupir de aulas de manhã à noite, ainda precisa dedicar horas para a preparação de aulas e correção de provas. Mas isso não me impediu de querer sair da minha zona de conforto e conhecer as coisas.

              Falando em trabalho, as coisas ficam ainda mais assustadoras. Pensando em legislação brasileira, se trabalhamos mais ou menos, dependendo de cada profissão e cada caso, dos 18 aos 65 anos, temos 47 meses de férias. Apenas 47 míseros meses! Isso não chega a dar quatro anos de descanso! Apenas quatro anos de descanso para 43 trabalhados. Os números podem não ser exatos, mas já dão uma ideia de como é a situação. A coisa é ou não desproporcional? Aí o sujeito decide passar esses míseros quatro anos, somados a finais de semana, a passeios, no máximo, a shoppings centers. Evidentemente que cada um é livre para decidir o que quer fazer da própria vida, mas eu acho, cá entre nós, que ter uma vidinha assim é uma decisão bem mequetrefe. Eu disse, em um conto do meu segundo livro, que muita gente vive tão mecanicamente a própria vida que vive setenta anos e nem se deu conta da própria existência. Isso para mim é insuportável.

              É possível viajar barato (talvez isso seja tema para um outro artigo) e com menos conforto. Não é preciso um hotel cinco estrelas para curtir um passeio. É possível sim se programar para viajar nas férias ou em algum feriadão. Não é preciso recusar sua casa e outras coisas para poder conhecer o mundo. É possível conciliar as duas coisas. Eu viajei para a Europa depois da minha qualificação de mestrado. Isso me ajudou a arejar as ideias e, quando voltei, pus-me à correção do texto.

              Viajar me ajudou em muitas outras coisas: entender que o mundo é grande demais e eu sou apenas um zero à esquerda perto dele; a ser menos egoísta e entender que eu preciso do outro; a respeitar a força da natureza e entender que o ser humano é apenas uma peça nisso tudo aqui; valorizar meu esforço em aprender línguas estrangeiras para aprender a me comunicar melhor; valorizar meu país, minha própria língua e minha casa. Eu faria ainda uma lista muito maior, mas não quero cansar o leitor. Preciso aprender ainda muitas outras coisas. Talvez eu precise visitar Itaipu: ando deixando as luzes dos cômodos ligadas e isso é um defeito e tanto. Quisera eu deixar as luzes das esperanças, de todos os corações do mundo, acesas. Seria uma atitude e tanto!

Viajar, bem no cerne do clichê, acabou por me modificar. E isso vicia a ponto de você não querer parar. Essa é uma das razões que me fazem viajar, entre outras muitas. Basta você, agora, encontrar alguma que faça tirar a bunda do sofá e ir ver as coisas. Ou não, daí você, para ter um enterro decente, tem que torcer para os bombeiros descobrirem logo o teu corpo.