O MOCHILEIRO DA “PIONEIRO HERCULANO”

A mochila, que antes carregava materiais escolares, era sempre maior do que eu, que não passava de um garoto mirrado, indefeso e sorumbático. Na tenra infância, paraíso idílico de adultos frustrados com alguma coisa, eu era um garoto magro demais, sem muita força nos braços, resultado de uma anemia profunda. Sempre carreguei as coisas com dificuldades e não era dado a comer. Um pedaço tímido de carne mal passada e alguns míseros grãos de arroz era o que eu conseguia comer. Por isso, aqueles que me conheceram na época do apetite magro não me reconhecem ao se depararem com um trintão roliço.

E lá ia eu com a minha mochila para escola ou onde quer que fosse. A mochila era uma extensão de mim. Educação é a saída para driblar o sistema, diziam-me. Eu não entendia nada do que era esse tal sistema. E estudava. Mas estudar para mim era desbravar. Desbravar sempre foi brincadeira de menino. Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões nunca foram nada além de meninos com brinquedos. Eu nunca passei de um menino querendo desbravamentos. Por isso a mochila tinha papel importante: ali eu carregava os materiais que eu usava para desbravar. Ali era minha porta de entrada para o que eu não conhecia. A mochila era minha caravela. A mochila, embora eu tenha crescido um pouco e engordado muito, continua maior do que eu.

Eu saía com a mochila nas costas, subindo a íngreme Rua Pioneiro Herculano Ferreira, que ficou muitos anos sem asfalto, e que foi traiçoeira com motoqueiros, ciclistas e gente distraída. Eu já esfolei o peito nos cascalhos da Pioneiro Herculano – que já teve o nome pífio, como milhares de ruas ainda sem nome, de Projetada A. Usei sacolinhas de plástico para não sujar os tênis (mas eu sempre sujava) quando subia a rua para pegar o ônibus que não descia em dias de chuva.

Veio o asfalto e a rua ficou mais bonita. O ônibus passou a descer até à esquina de casa e eu não precisei mais andar tanto carregando a mochila. Era dessa rua que nós saíamos para explorar a mata que cercava o bairro. Era dela que saímos para atravessar o Ribeirão Pinguim e ir para Sarandi – o que já era considerado uma grande viagem.

Era a Pioneiro Herculano que a gente percorria até chegar à rodovia. Eu passava, sozinho ou acompanhado, algumas horas por semana sentado no acostamento, vendo o movimento desenfreado dessa rodovia que levava gente para qualquer lugar que fosse. Ficava tentando ler as placas, ficava tentando adivinhar de onde vinha e para onde ia essa gente. Muitas vezes cumprimentava os caminhoneiros, sonhando em um dia pegar carona e ver até onde ele iria com aquela carreta gigante, carregada de mistérios. Não me culpe, era uma bela romantização de menino. Não se esqueça de que eu não deixei de ser um menino.

Uma vez, regressando sozinho ao meu bairro depois de um jogo de futebol no bairro vizinho, eu andava um pouco amedrontado pelo acostamento dessa rodovia, pois a hora já ia avançada. De repente vi uma carreta encostar. Um sujeito gordo com um boné da Pirelli chutou porta fora uma mulher, de vestido marrom rasgado com a calcinha aparecendo. Era provavelmente uma prostituta. Ele a xingou, fechou a porta, ligou a carreta e seguiu viagem. Fiquei parado olhando para a mulher, que arrumou o cabelo, o vestido, calçou um dos sapatos que tinham se soltado do pé durante a queda e saiu andando em minha direção. Passou por mim e, sem me olhar, disse:

— Cai fora, pirralho, não vai ter sexo aqui não. Aquela estrada também era repleta de submundos. E se ela me amedrontava, eu buscava refúgio na minha rua.

A mochila velha foi jogada fora. Outras vieram. Hoje, a menor carrega meus materiais de trabalho. A maior carrega as fotografias que eu vou acumulando. Virei viajante mochileiro e ando percorrendo tantas ruas que já perdi a conta. Recentemente estive andando pelas montanhas do Chile. Senti calor, frio, vi chuva, neve e, nas horas intermináveis daquela escalada, acabei me afastando do grupo que me acompanhava. Caminhei sozinho por uma hora nos caminhos tortos de uma floresta sobre a montanha. A mochila sempre comigo. Andar por aquelas trilhas foi como desbravar uma nova Pioneiro Herculano. E então entendi que todas as ruas do mundo, para mim, não passavam de uma extensão da Pioneiro Herculano, minha primeira rua.

Lembrei da garota que beijei no ônibus que cortava a América do Norte de leste a oeste. Ela nunca soube que sempre pertenceu à Rua Pioneiro Herculano. Aquela estrada que cruzei de ponta a ponta nos Estados Unidos não passava de um trecho da rua da minha infância. Aquele caminho de pedras que vi na Itália é parte da Pioneiro Herculano. Os romanos nunca puderam entender que já caminhavam pela minha rua há dois milênios.

A Champs-Élysées, pela qual caminhei com meus amigos, era extensão da minha rua. Meus amigos nunca imaginavam que pisavam na rua desbravada. A Times Square é uma menina perto da Pioneiro Herculano, a Gran Via também. Não interessa o que veio primeiro cronologicamente falando. Para mim sempre veio primeiro a Pioneiro Herculano. O resto é entroncamento. A rua da minha casa é a rua do mundo. Muitos tentam construir uma narrativa de estrada própria, algo realmente metafórico e até besta (inclusive eu). Mas o que eu construía era uma busca pela rua da própria casa, onde um menino tinha perdido a inocência e se transformado em um adulto como qualquer outro, embora mantivesse o dom da fabulação. A minha mochila, que tanto me acompanha, já tinha compreendido tudo, menos eu.

Por Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi, professor do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UEL (Universidade Estadual de Londrina/PR), graduado no Curso de Letras Português/Francês (UEM – Maringá/PR), mestre em Estudos Literários (UEM – Maringá/PR), doutorando em Estudos Literários (UNESP – Araraquara/SP), escritor – pseudônimo de Luigi Ricciardi. Obras: Anacronismo moderno (2011), Notícias do submundo (2014) e Criador e Criatura (2015).