Ficção e Realidade na Literatura

Hoje dou um tempo nas viagens para falar de literatura, que é uma das minhas paixões. Tanto que se transformou de passatempo em trabalho. Hoje faço doutorado na área. Mas não é preciso ser especialista para gostar ou falar de literatura. Essa arte, como todas as outras, não está presa em lugares distantes, mas está bem próxima e pode conviver dentro do nosso cotidiano. Livros não são feitos para ficarem dentro de gavetas ou empoeirando em cima das estantes, mas servem para serem lidos. Talvez em outro post eu fale sobre as funções da literatura em nossa vida, mas não nesse.

Venho falar especificamente de um tipo de literatura que vem tendo muito espaço no mercado: o da autoficção. O termo parece de difícil compreensão, mas é simples entender. Muitos dizem que o gênero é apenas uma consequência da curiosidade e bisbilhotice dos tempos modernos em relação à vida privada das pessoas. Outros dizem que é um gênero maior, que desafia os limites de realidade e ficção. Cada voz tem sua razão, mas não é necessário escolher uma para se deliciar com as belas obras produzidas nesse gênero.

O termo foi cunhado nos anos setenta pelo francês Serge Doubrovsky. Perguntaram a ele se o livro Fils, que tinha acabado de ser publicado, era ficção ou uma autobiografia – pois o personagem principal do livro, narrado em primeira pessoa, tinha o mesmo nome do autor e muitas de suas características. Sua resposta foi que não era nem uma coisa nem outra, que o livro era uma autoficção.

Evidentemente que qualquer obra de ficção se espelha em alguns elementos da realidade para ser construída. A história da literatura está abarrotada de exemplos. Até mesmo as obras de universo fantástico se inspiram no nosso universo. Claro que há uma aproximação maior entre realidade e ficção em algumas narrativas, daí a criação de alter egos, por exemplo. Também temos inúmeros exemplos disso. Aqui a coisa é diferente: o narrador é extremamente parecido com o autor, ambos têm o mesmo nome, profissão etc. Suas ações é que estão no limite entre uma coisa e outra. Doubrovsky revolucionou fazendo isso.

Desde então, essas narrativas que exploram o justo espaço entre a vida pessoal do autor e a ficção não param de sair. Brasil e França são os países que produzem hoje o maior número de romances autoficcionais. Uma dica para os leitores que querem se aventurar na leitura de tais textos: não caia na armadilha de ficar tentando descobrir o que é real ou não dentro do livro, pois é impossível saber. A não ser que o autor seja raptado por alienígenas, saia do sistema solar e conheça uma civilização que habita um planeta que fica há quinhentos anos-luz da terra. Aí tá na cara que é ficção (ou não?). Acabar se rendendo a esse exercício, o leitor reduz realmente a obra de arte àquela simples bisbilhotice. Faço agora algumas indicações de leitura de romances bem interessantes do gênero.

BROCHADAS – Jacques Fux

O livro é hilário. O personagem principal, obviamente chamado Jacques Fux, decide escrever um relato sobre todas as suas brochadas com as mulheres que já teve. Aqui ele não reduz brochada somente ao não funcionamento do órgão masculino no ato sexual em si, mas eleva o termo ao ânimo, psicologia, e a outros lugares. Ele escreve e-mails para suas ex-namoradas, ficantes e peguetes contando tudo o que sentiu e o que pensou delas quando estavam juntos. Suas mensagens são respondidas e em geral são escrachadas geniais que essas mulheres dão nele. Envolve tanto que se lê numa sentada.

DIVÓRCIO – Ricardo Lísias

Outro romance hilário, mas aqui com um sarcasmo e ironia fina. O protagonista do romance vive uma fase extremamente depressiva logo após o fim de seu casamento. O que levou ao término do relacionamento foi um diário, supostamente escrito por sua mulher, que ele encontrou em cima da cama. Nele a mulher dizia que não o amava e que o havia traído em uma viagem que fez para cobrir o Festival de Cannes. Em posse do diário, ele pede o divórcio e ameaça processá-la. Quando amigos da jornalista o perseguem, ele ameaça divulgar todo o conteúdo do diário na internet.

O FILHO ETERNO – Cristóvão Tezza

Aqui o tom muda severamente. O protagonista, escritor sem muito sucesso, acaba de ser pai. Porém, um “problema”: o filho nasce com síndrome de down. Ele não sabe como agir e chega até a ter raiva do filho. Julgado outrora como romance oportunista, O filho eterno não aponta, na verdade, para soluções fáceis como um simples livro de autoajuda faria. Discute profundamente o tema e mostra uma perspectiva diferente do caso. Belíssimo romance!

 

NOTÍCIAS DO SUBMUNDO E CRIADOR E CRIATURA – Luigi Ricciardi

Fazendo agora meu próprio merchand, tenho dois livros cujos contos dialogam fortemente com a autoficção. Não são todos, mas boa parte deles.

 

OUTROS LIVROS AUTOFICCIONAIS:

RIBAMAR – José Castello

DESERTO – Luis Krauz

A CHAVE DE CASA – Tatiana Salem

NOVE NOITES – Bernardo Carvalho

Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi, professor do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UEL (Universidade Estadual de Londrina/PR), graduado no Curso de Letras Português/Francês (UEM – Maringá/PR), mestre em Estudos Literários (UEM – Maringá/PR), doutorando em Estudos Literários (UNESP – Araraquara/SP), escritor – pseudônimo de Luigi Ricciardi. Obras: Anacronismo moderno (2011), Notícias do submundo (2014) e Criador e Criatura (2015).

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