AFINAL, QUE ESTRADA?

Saudações a todos os Kings de plantão,

Sou Luigi Ricciardi, professor de francês e literatura. A partir de hoje, passo a fazer parte da equipe Red King, que vem fazendo um ótimo trabalho e tem um futuro brilhante pela frente. Fiquei ao mesmo tempo feliz e apreensivo quando recebi o convite do Vinícius Mazieri e do Marcelo Santana. Espero poder contribuir aqui nesse espaço com matérias sobre literatura e viagem.

E nesse meu primeiro post vou falar justamente dos dois. Abro a seção com um texto chamado Afinal, que estrada?, conto que saiu no meu livro Notícias do submundo (2014). É um conto cheio de referências à “bíblia” da geração beat, ícone da contracultura do pós-guerra, On the road do escritor franco-americano Jack Kerouac.

Fiz, como muita gente, essa viagem em 2012, tentando seguir os passos de Jack. A experiência foi fantástica que eu decidi transformá-la em conto. Espero que gostem. Abraço!

 

 

AFINAL, QUE ESTRADA?

Luigi Ricciardi

 

Afinal, que Estrada? Conheci On the Road não muito depois de um dos meus sonhos morrer. Eu havia saído de um relacionamento conturbado do qual não vale a pena nem falar. Nessa época eu estava tentando matar o meu pai, mentalmente é claro, que é, ao menos dizem, a maneira da gente ser homem de verdade e seguir a vida. Um dia, durante uma aula, os alunos estavam dizendo qual era o livro preferido de cada um, e me deparei com esse livro, título em inglês, pedante, insistindo em manter o título original, embora já houvesse uma tradução em português. Com a chegada desse livro se intensifica o que se chama de minhas férias na estrada.

Sim, férias, e não a vida toda. Não tenho colhões para ser uma espécie de santo beat tal Jack Kerouac. Minha geração é medrosa, está longe de ser aquela dos anos 1950, que também vivia no marasmo, mas sabia viver. Eu até tinha botado a mochila nas costas e ido me aventurar em Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, e foi logo depois do fim de outro momento na minha vida, mas ainda assim não tinha sido verdadeiramente uma aventura.

Na Europa não vi estrada, não da maneira como se vê contemporaneamente. Voei, e não realizei essa coisa de fetiche, ver essa linha branca e pura que corta o asfalto, não vi uma francesinha de olhos claros com quem eu gostaria de me casar e passar a vida colhendo lavandas. Não peguei carona com o povo frio francês, não tive a chance de chamar uma bela sulista para um café e um Crème Brulée.

Quis ver o charme e o fetiche estadunidense de perto. Estradas românticas, tipo vídeo clipe. É, a gente vai criando sonhos bobos, mas é o que resta a uma geração celular, bem mais perdida que aquela geração Coca Cola já cantada antes. Resolvi ir sozinho de Boston a São Francisco, ida e volta, quase doze mil quilômetros, para ver se eu encontrava alguma das imagens vistas no livro. Juntei-me ao grupo de mais de cinquenta mil pessoas que já tentaram fazer, senão todo o trajeto, ao menos parte dele para tentar encontrar o mesmo. Quem sabe ficar por lá, ver uma garota, tomar cerveja com o irmão dela, e dar um pico pra alegrar. Essa seria a vida ideal. Hoje estou por entre árvores de uma cidade hipócrita. Porque os sonhos se desfalecem tão facilmente? Porque a elevação é tão efêmera?

Queria ir de carro, mas meu primo que mora no Cape Cod estava trabalhando em Nantucket e não podia ir. Ouvi dizer que pegar carona agora era proibido e que as pessoas tinham medo de levar multa por isso. Resolvi então ir de Greyhound, comprei uma passagem na internet por uma bagatela de trezentos dólares. Nas primeiras quatro horas, eu já começara a reler On the Road. Sentei-me ao lado de um esquiador, o cara parecia bacana, eu queria conversar, mas ele não deu espaço. Eu queria mesmo era falar com todo mundo, conhecer algo novo, falaria até com a brasileirinha nariguda com cara de evangélica que estava sentada no terceiro banco. Eu estava tão contente que se ela quisesse orar por mim eu aceitaria. Tudo era válido. Tinha uma negra muito bonita no outro banco, de um negrume diferente da morena brasileira. E fiquei vendo essa paisagem crepuscular até chegar à Nova Iorque.

Logo na troca de ônibus, tomei uma bronca do motorista que me gritava “ID” para mostrar alguma identificação e eu não entendia o inglês dele, aliás, eu não entendia praticamente inglês nenhum, e fiquei sorrindo, balançando a cabeça, cumprimentando-o várias vezes com cara de otário. Ele praticamente me bateu, apontou para o papel e disse para mostrar uma foto, aí entendi. Entrei no ônibus e comecei a ter a primeira decepção.

Eu estava entre os nigers, que falam sem parar, pareciam brigar, perto deles um grupo de italianos discutindo pareceria estar recitando poemas. Nenhum deles me dirigiu a palavra, ainda bem, eu estava com medo, mais das mulheres do que dos caras, elas cuspiam pra falar e mostravam seus vãos entre os dentes. Aí um cara começou a ouvir hip hop.

Que belo início de viagem para alguém que queria chegar Nova York, encontrar qualquer merda de trabalho na rua pra pegar a primeira carona em direção a São Francisco, para fazer uma ontheroad, e parar por motéis baratos pelo caminho, bebendo cerveja long neck e sonhando em caçar fantasmas e transar com garotas loucas dentro do Impala em movimento. Nesse sonho, eu chegaria em São Francisco e trabalharia como ajudante da City Lights e nas horas vagas eu trocaria umas palavras com o meu chefe Lawrence Ferlinghetti e ele me contaria as loucuras quando aquela trupe de beatniks aparecia na porta dele e da ideia que ele teve pra escrever o seu célebre Um Parque de Diversões na cabeça. Nada disso aconteceu, é claro. Eu estava triste.

Na Filadélfia a coisa estava pior, eu não entendia uma palavra sequer do que as pessoas diziam, e captava algumas palavras soltas no discurso que o motorista fazia no microfone dentro do ônibus ao sair da rodoviária. Uma garota mexicana trocou umas duas palavras comigo, pediu para sentar ao meu lado, no lugar de um maluco desastrado que já havia derrubado suco no asteca que estava sentado à frente. Eles trocaram de lugar, a menina sentou ao meu lado e começou a falar em uma língua situada entre o inglês, o espanhol e o maia que ela precisava de dinheiro e que faria qualquer coisa para conseguir. Eu já estava louco por sexo, mas resolvi esperar. De repente, outro sujeito veio sentar no lugar dela, ela foi para outro banco, atrás do sujeito desastrado e tentou roubar sua carteira. Acabei entendendo o que significava esse “fazer tudo para conseguir”.

Passamos por Pittsburgh, Columbus, Indianápolis (sim, eu tentei ver um carro de corrida, mas não vi) e Saint Louis, onde uma motorista muito simpática fazia piadas, conversava a viagem toda falando de como e porque ela havia escolhido tal profissão, e que dava tapinha nas costas de todos e chamava todo mundo de honey. Ela ainda dava um belo caldo no auge dos seus quarenta e tantos. A essa altura tudo o que se mexia e tinha um buraco me chamaria a atenção.

Eu já estava bem amigo do senhor desastrado. A cada parada tentávamos conversar. Ele era um engenheiro solteirão de Trinidad e Tobago que resolvera fazer mochilões todos os anos. Eu já havia melhorado a minha compreensão no inglês, mas o sotaque dele era desastroso e minha comunicação pior ainda. Mas ficamos amigos mesmo assim. Era um sujeito simpático, tentava me explicar as máquinas que ele construía, falando da filha única que teve sem casar, que preferia a vida assim, e de como ele gostava da sua ilha caribenha.

Passamos por muitas cidades no centro do país. Em Lawrence achei que fosse ver os Winchesters. Na maioria das rodoviárias, muitas delas citadas no livro de Kerouac, eu esperava ver alguém com as mesmas características, uma alma penada ou algo do tipo, que me pediria um dólar para poder tomar um café quente na noite fria de quinze graus negativos. Não vi ninguém.

De longe, vi um bar todo de madeira que parecia ter saído dos anos 1920 direto para o século XXI, onde um negro tocava um violão velho e o outro tocava gaita. Era aquilo que eu procurava. Mas paramos bem à frente, em uma lanchonete moderna com garçonetes com uma educação engessada e gente apressada para dar uma cagada no banheiro, pois o ônibus balançava muito. De modo que não vi o blues de beira de estada.

Em algum lugar entre Saint Louis e Kansas City, um maluco entrou no ônibus, disse que estava pegando carona desde Miami e estava indo para “élei”, que era uma maneira muito maneira de dizer Los Angeles. Ele vinha da Austrália, onde tinha pegado várias ondas. Ele carregava sua prancha surrada e tinha um olhar de louco que arde. Pensei, esse cara é o tipo de gente que procuro. Tentei conversar com ele, mas meu inglês sustentou a conversa durante os dez primeiros minutos, e, na meia hora seguinte enquanto esperávamos o ônibus que estava atrasado, eu só balançava a cabeça concordando entre um yes e outro.

Chegamos a Denver, a maravilhosa Denver que teve o privilégio de ter Kerouac, Cassady e Ginsberg perambulando pela cidade à noite, e velhos vagabundos mendigando perto das linhas de trem. Mas, em Denver eu só vi neve, e todo mundo dizia chavões. Entramos no desértico Wyoming, parando entre uma lanchonete e outra no meio das montanhas e da neve. Um vento de tristeza me congelou entre os vilarejos. Senti saudade da minha gente. E de um corpo quente. Foi quando entrou uma linda garota, jovem, roupa de militar. Foi saudada pelo motorista fanfarrão como se ela fosse a salvação do país. Ela estava indo para uma base na costa oeste, mas não me lembro o nome da cidade. Eu estava sozinho no banco duplo, e, logo após o apertado corredor, ela também estava sozinha. Ela se esticou, ocupou os dois bancos, com as costas na lateral do ônibus. Começou a ler, e disfarçadamente no início, e não tão disfarçadamente depois, começou a me olhar.

Fiquei meio receoso de ficar com uma militar, mas seu beijo era quente. Ela me contou um pouco sua história, família de militares, precisava seguir a carreira da família meio a contragosto. Ela me chamou de macaquinho branco, e disse que queria ter um romance comigo. Só não gostava da minha barba, disse que eu tinha cara de comunista. Combinamos um encontro em Boston para dali uma semana, mas sabíamos que isso não aconteceria. Ela iria para a guerra física, e eu para a psicológica. Eu não podia ficar ali, eu ainda tinha alguns livros para escrever. E o surfista reapareceu em Salt Lake City, enquanto a militar dormia encostada em mim. Começou a falar alto, sozinho, dizendo que não se arrependia de ter transado com uma guria de nove anos. Quis sentar a cada segundo em todos os bancos do ônibus, dava socos no ar brigando com alguém. O motorista pediu pra todo mundo ficar sentado, pois as estradas nas montanhas eram perigosas, e o surfista acabou sentando no colo da mulher de um mexicano, daqueles mariachis com chapéus enormes. A briga começou com o ônibus deslizando na pista cheia de gelo. Foi a minha pequena, muito mais macha que eu, que acabou com toda aquela história ameaçando o louco de prisão.

Cheguei a Sanfran quatro horas depois do previsto, meu amigo já me esperava na rodoviária há muito tempo. Antes disso, ficamos horas presos em uma nevasca no alto das montanhas da Califórnia, entre uma gritaria de duas famílias enormes de negros que estavam empolgados para chegar logo em Sacramento. Os caras eram simpáticos, as garotas gordas e bonitas, e eu já entendia o que eles falavam. Fiquei só de ouvidos na conversa toda. Fomos guinchados e deslizávamos entre despenhadeiros. Minha pequena tinha ficado em Reno. Foi bom tomar um banho depois de tantos dias, e ver alguns rostos conhecidos. Durante os quatro dias que fiquei na cidade da contra cultura, fiz estilo turista alegre, tirando fotos, visitando pontos turísticos. Revi um grande amigo e sua esposa, falamos da vida, dos destinos que se cruzam e se entrecortam, e da beleza do futuro inesperado.

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Fui tentar ver o Ferlinghetti na City Lights e fiquei olhando pela janela embaçada do Café Vesúvio para ver se encontrava a mesa onde Kerouac tomava seus porres. Vi a belíssima ponte, andei de metrô, subi as ruas extremamente íngremes de Berkeley e fui ao Píer 39, onde vi vendedores de ostras que cantavam estilo havaiano. O museu beat estava fechado. Conheci duas italianas malucas que tinham morado no Brasil e falavam um pouco de português. Elas eram amigas de um cara do Mali, com quem finalmente consegui conversar em francês. Fumamos um, mas elas queriam fazer um jogo estranho, queriam me beijar, só que antes eu teria que fazer alguma coisa com o amigo delas, mas eu não havia entendido direito. É claro que não fiquei pra ver, e fui dar uma volta na fétida Chinatown.

Resolvi depois ir andar de bondinho a uma bagatela de seis dólares a viagem. Fiz amizade com o condutor, um chinês convertido ao catolicismo que havia visitado Portugal. Quando descobriu que no Brasil se falava português e que havia uma santa negra por aqui ele ficou encantado e disse que eu não precisava pagar a viagem de volta. Na rodoviária conheci duas mineiras e um baiano que também estavam em um mochilão, e já haviam passado por Maringá. Elogiaram a cidade, ao que eu respondi: vocês estão muito enganados. Dormi na rodoviária, abraçado à mochila, pois meu ônibus tinha sido cancelado por conta da nevasca. Frisco era linda, mas extremamente triste. A chuva fina e fria que cortou minha passagem por lá me dizia que mesmo na Califórnia o mundo tinha mudado. Tomei chuva para engolir um hambúrguer, e me sequei com a calefação da rodoviária.

Dormi de novo no chão da estação, pois eu já não tinha mais dinheiro para hotel, nem sabia voltar para a casa do meu amigo. No dia seguinte, enfim, meu ônibus saiu. Passei por Los Angeles e não consegui ver o famoso letreiro de Hollywood. Atravessei o deserto do Novo México, vi muito distante o início do Grand Canyon, atravessei o Texas e cheguei a Oklahoma, onde uma mexicana, que ficou boa parte da viagem apertando minha coxa, entrou no banheiro masculino da rodoviária com um árabe. Voltei a Massachussets, onde eu já tinha sido parado pela polícia e sido enganado por um vírus de computador pensando que eu seria preso pelo FBI.

No fim de tudo, eu não havia visto aquele ar de época, datado lá nos anos 1940 e 1950. As estradas hoje estão perigosas, são modernas, pelas quais os caminhões cortam o país. Aquela estrada não existe mais, não há mais aquele tempo quase suspenso, que demorava a passar. Sem pesar. Aquela estrada estava envelhecida. Kerouac oscula outra dimensão, não pude lhe dar um abraço, assim como não pude beijar Piaf quando estive na França, havia um mármore a lhe cobrir o túmulo. Mas sempre há um novo percurso, a nos seduzir com suas curvas. Qual será a próxima estrada a ser desvendada? O percurso é físico e metafórico, os passos nunca param, nunca estamos inertes. Talvez a morte seja a última estrada, embora não gostemos de pensar nela. Afinal, acho que todos nós procuramos essa estrada, é intrínseco e inconsciente. Fugimos dela a vida toda, mas no final, a gente se deixa seduzir. Enquanto isso, tentamos escapar, por entre trevos e desvios.

Quanto a mim, ainda há inúmeras antes da derradeira. Assim espero! E hoje, quando fico apertando a memória para contar os detalhes de tudo o que aconteceu, entre coisas boas e ruins, eu me lembro daquele sol morno, tentando vencer aquela neve acumulada, aquele frio de peito. Lembro-me daquela imensidão de terra, tão odiada por muitos, mas que é muito bem construída pela natureza. Lembro do céu rosado, com algumas tímidas estrelas e os cumes inatingíveis de montanhas que não cessam de passar pela janela do ônibus. Lembro daqueles motoristas falastrões, pois falar foi que lhes restou. Lembro-me daqueles imigrantes deslocados, longe de seus Méxicos, Colômbias, Líbanos, Perus, Marrocos, Argentinas, Brasis, Malis e Libérias. Eles que apalpam a desmatéria, tentando construir nova casa, percorrendo algumas trilhas sem roçado. Lembro-me da pequena que me amou no ônibus. Estaria ela morta em algum campo de guerra, ou ainda se desloca por aí? Quando eu vejo isso tudo, eu penso em Dean Moriarty

Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi, professor do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UEL (Universidade Estadual de Londrina/PR), graduado no Curso de Letras Português/Francês (UEM – Maringá/PR), mestre em Estudos Literários (UEM – Maringá/PR), doutorando em Estudos Literários (UNESP – Araraquara/SP), escritor – pseudônimo de Luigi Ricciardi. Obras: Anacronismo moderno (2011), Notícias do submundo (2014) e Criador e Criatura (2015).

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